Mundo celebra hoje o Dia Internacional da Mulher
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O mundo celebra hoje mais um 8 de Março, data consagrada mundialmente à mulher. A efeméride tem origem nas lutas das trabalhadoras no fim do século XIX e início do século XX, quando milhares de mulheres reivindicavam melhores condições de trabalho, direito ao voto e igualdade de direitos.
A institucionalização da data ocorreu em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, realizada em Copenhaga. Na ocasião, a líder alemã Clara Zetkin propôs a criação de um dia internacional dedicado à luta das mulheres. A proposta foi aprovada por representantes de vários países.
No ano seguinte, em 1911, realizaram-se as primeiras celebrações em países como Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suíça, mobilizando milhares de mulheres em manifestações e debates públicos sobre direitos sociais e políticos.
O 8 de Março ganhou particular significado histórico após a greve de operárias em Petrogrado, na Rússia, em 1917, que exigiam “pão e paz”. O protesto acabou por desencadear acontecimentos ligados à Revolução Russa.
Décadas mais tarde, em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas passou a celebrar oficialmente o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher.
A mulher angolana no Poder
A presença feminina na política angolana tem registado um crescimento significativo nas últimas décadas. Dados da União Interparlamentar (IPU), actualizados em Dezembro de 2025, indicam que a Assembleia Nacional de Angola conta actualmente com 91 deputadas em 220 assentos, o que corresponde a 41,4% da representação parlamentar.
O número coloca Angola acima da média da África Subsaariana, estimada em cerca de 27%, e entre os países com maior participação feminina na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
A evolução torna-se mais expressiva quando comparada com os primeiros anos da independência. Em 1980, na primeira legislatura, as mulheres ocupavam apenas 8,3% dos lugares parlamentares. O avanço começou a ganhar força sobretudo a partir de 2012, quando a presença feminina ultrapassou de forma consistente a marca dos 30%.
Especialistas apontam que esta progressão resulta, em grande medida, de políticas de acção afirmativa. A legislação angolana estabelece uma quota mínima de 30% de representação de género nos órgãos de direcção a todos os níveis, princípio consagrado na Lei n.º 22/10.
Governo e Poder Local
No Executivo, a participação feminina também tem aumentado, incluindo cargos de elevada responsabilidade. A actual Vice-Presidente da República, Esperança da Costa, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo desde a promulgação da Constituição de 2010.
Actualmente, além das várias pastas ministeriais serem lideradas por mulheres. O país conta com nove governadoras num universo de 21 províncias. A ministra de Estado para a Área Social e a presidente do Tribunal Constitucional são outras figuras femininas que ocupam a linha da frente do Estado.
O tema da igualdade de género tem sido reiterado no discurso político. Na abertura do mais recente Congresso da Organização da Mulher Angolana (OMA), o Presidente João Lourenço sublinhou que “não há desenvolvimento sustentável sem igualdade de género, nem democracia sólida sem mulheres nos espaços de decisão”. A meta assumida pelo Executivo é alcançar a paridade de 50% nos sectores político, económico e social.
A mulher rural
Apesar dos avanços na esfera institucional, o maior desafio em matéria de equidade de género continua a situar-se no meio rural.
No interior do país, antes mesmo do nascer do sol nas montanhas do Bié ou nas planícies do Cunene, milhares de mulheres iniciam jornadas de trabalho que podem ultrapassar 14 horas por dia. Com uma quinda à cabeça e, muitas vezes, um filho às costas, elas garantem o funcionamento da economia familiar.
A mulher rural desempenha um papel central na produção agrícola. Estimativas internacionais indicam que as mulheres representam cerca de 70% da força de trabalho agrícola em África. Em Angola, produzem aproximadamente 80% dos alimentos consumidos pelas famílias.
O seu papel na economia doméstica é múltiplo. Nos campos e quintais, cultivam produtos como mandioca, milho, feijão e hortícolas, assegurando a alimentação do agregado familiar. Ao mesmo tempo, participam activamente na transformação e comercialização de produtos agrícolas.
Os excedentes da produção são transformados em derivados como bombó, fuba de milho, óleo de palma ou quitaba, posteriormente vendidos em mercados locais e informais, constituindo frequentemente a principal fonte de rendimento das famílias.
Neste contexto, a aposta no empreendedorismo feminino tem ganhado destaque nas agendas políticas e institucionais. Durante o seu 8.º Congresso, a Organização da Mulher Angolana (OMA) defendeu o reforço de programas de apoio ao empreendedorismo feminino na agricultura e na pecuária de pequena escala.
Especialistas sublinham que a inclusão financeira será determinante para este processo. Iniciativas como o “Banco da Mulher” ou linhas de crédito específicas em instituições de desenvolvimento podem ajudar a transformar a agricultura de subsistência em pequenos negócios sustentáveis.
Culto ecuménico reflecte sobre o valor da mulher na sociedade
Cerca de oito mil fiéis participam, hoje, em Luanda, num culto ecuménico realizado pelo Conselho de Igrejas Cristãs em Angola (CICA), para reflectir sobre o papel e o valor da mulher na sociedade angolana.
O culto ecuménico, apoia- do pelo Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher (MASFAMU), enquadra-se nas comemorações do Dia Internacional da Mulher que hoje se assinala.
Em conferência de impren- sa, realizada quinta-feira, em Luanda, o secretário do CICA, Vladimir Agostinho, enfatizou que o acto servirá para homenagear as mulheres que tudo fizeram para a conquista do seu espaço em todos os domínios da sociedade.
Presente no acto, a líder da Igreja Teosófica Espírita, Suzeth João, disse que o encontro pretende reunir várias organizações religiosas e blocos ecuménicos que actuam no país, dando como exemplo a Aliança de Igrejas em Angola, o Fórum Cristão, igrejas independentes, entre outras.
Para Suzeth João, a celebração será um momento de gratidão a Deus pela vida das mulheres e pelas conquistas alcançadas ao longo da história.
“A mulher tem hoje responsabilidades e ocupa cargos importantes na sociedade. Este é um momento para louvar a Deus pelas conquistas e também lembrar aquelas mulheres que lutaram pela libertação e valorização da mulher”, afirmou.
Por sua vez, a secretária-geral da Igreja Evangélica Reformada de Angola (IERA), Deolinda Dorca, explicou que o evento será também um momento de reflexão sobre o papel da mulher na igreja, na família e na sociedade.
“Queremos lembrar e homenagear as mulheres que contribuíram para o desenvolvimento do país, muitas delas desconhecidas, e reflectir sobre o papel enquanto mulheres na sociedade”, sublinhou.
Durante o encontro, serão realizadas orações pela paz em Angola, no continente africano e no mundo, bem como pela inclusão social, com destaque para as mulheres com deficiência.
As organizações religiosas reiteraram ainda o papel da igreja na promoção da paz, da educação moral e da convivência harmoniosa entre os cidadãos, sobretudo entre os jovens.
Figuras femininas em destaque
A vida política e institucional angolana conta hoje com várias mulheres de referência com projecção nacional e internacional.
Dentre elas, está Ana Dias Lourenço, Primeira-Dama da República, que tem assumido um papel activo na promoção da inclusão económica e do empoderamento feminino. Recentemente, participou nos Africa Prosperity Dialogues 2026, realizados no Gana, onde defendeu uma maior integração de mulheres e jovens no comércio intra-africano.
No plano governativo, a Vice-Presidente Esperança da Costa simboliza o avanço da participação feminina nos mais altos níveis do poder executivo. Já no sector judicial, Laurinda Prazeres representa um marco na liderança feminina ao dirigir o Tribunal Constitucional.
Além da esfera política, o reconhecimento do papel da mulher angolana tem sido reforçado por prémios, iniciativas e programas que valorizam a liderança feminina em áreas como economia, educação, ciência e desenvolvimento comunitário.
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