Da tensão à “guerra aberta”: O que se passa entre Afeganistão e Paquistão
As tensões entre o Paquistão e o Afeganistão aumentaram após ataques recentes, levando a uma declaração de “guerra aberta” por parte do Paquistão. Entenda o que se está a passar entre os dois países.
As tensões entre o Paquistão e o Afeganistão duram há vários anos, mas adensaram-se ao longo da última semana após um ataque de Islamabad contra supostos refúgios do grupo insurgente TTP (movimento talibã do Paquistão) em solo afegão, na semana passada. O Paquistão já declarou “guerra aberta” e garantiu que “reduzirá a pó” qualquer agressão de Cabul.
Na tarde de quinta-feira, o Afeganistão lançou ataques em grande escala contra as forças paquistanesas, em retaliação aos bombardeamentos nas províncias de Nangarhar e Paktia. A televisão estatal noticiou que as “operações de represália” começaram pelas 20h00 locais (15h30 em Lisboa).
Mais tarde, o porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid, indicou que “dezenas de soldados paquistaneses foram mortos”, havendo também “feridos e prisioneiros”. A mesma fonte disse à agência France-Presse (AFP) que mais de 15 postos avançados paquistaneses caíram em duas horas.
No entanto, a informação foi desmentida por um porta-voz do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que declarou que “nenhum posto paquistanês foi tomado ou danificado”, indicando, por sua vez, que foram infligidas “pesadas perdas” aos afegãos.
O Ministério da Informação do Paquistão denunciou os ataques, afirmando que os afegãos “abriram fogo unilateralmente contra várias posições” ao longo da fronteira com a província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa, acrescentando que o Paquistão lançou “uma resposta imediata e enérgica”.
Já pelas 1h50 locais (21h20 de quinta-feira em Lisboa), foram ouvidas várias explosões violentas em Cabul. As explosões foram seguidas de rajadas de tiros, como constataram os jornalistas da AFP no centro de Cabul até cerca das 02h30 locais.
O Ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, veio já afirmar que o país entrou numa “guerra aberta” com o Afeganistão após os intensos combates ao longo da sua fronteira.
“A nossa paciência acabou. A partir de agora, entramos em guerra convosco”, escreveu Asif dirigindo-se ao Afeganistão numa mensagem na rede social X.
Também o primeiro-ministro do Paquistão advertiu que o exército tem “plena capacidade para reduzir a pó qualquer ambição agressiva”, na primeira reação oficial após a declaração de “guerra aberta” do país contra o regime talibã do Afeganistão.
“A nação inteira está de pé, ombro a ombro com as Forças Armadas”, afirmou Muhammad Shehbaz Sharif, numa série de mensagens publicadas na rede social X, ressaltando que as tropas paquistanesas cumprem funções “com fervor nacional” sob a liderança do marechal Syed Asim Munir.
O Paquistão afirma que os ataques de Islamabad causaram a morte de 133 talibãs e mais de 200 feridos, enquanto o Ministério da Defesa afegão estimou as próprias baixas em oito combatentes mortos e onze feridos, além de treze civis afetados pelos bombardeamentos.
Já os talibãs afirmam ter matado 55 soldados paquistaneses, ter sob custódia 23 cadáveres de militares paquistaneses e um número indeterminado de prisioneiros.
Paquistão e Afeganistão: de aliados a inimigos de guerra
O Paquistão e o Afeganistão, aliados de longa data, têm entrado em confronto esporadicamente desde que os talibãs assumiram o controlo de Cabul, em 2021.
Islamabade acusa as autoridades afegãs de abrigarem militantes armados que lançam ataques em território paquistanês. Cabul nega a acusação.
As relações entre o Paquistão e o Afeganistão deterioraram-se drasticamente nos últimos meses, com as passagens terrestres praticamente fechadas desde os combates de outubro, que fizeram mais de 70 mortos de ambos os lados, embora os afegãos que regressam ao seu país tenham permissão para atravessar a fronteira.
Várias rondas de negociações seguiram-se a um cessar-fogo inicial mediado pelo Qatar e pela Turquia, mas estes esforços não conseguiram produzir um acordo duradouro.
A Arábia Saudita interveio este mês, facilitando a libertação de três soldados paquistaneses capturados pelos afegãos em outubro.
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